O Blog do Rúgbi

All Blacks atingem seu auge, dominam Austrália e transformam preto em ouro

UOL Esporte

Por Bruno Romano

(Capitão neozelandês Richie McCaw levanta a Webb Ellis no estádio de Twickenham)

A Nova Zelândia não se tornou apenas a primeira tricampeã mundial (1987, 2011 e 2015). Os All Blacks confirmaram hoje o maior reinado da história do rúgbi. Neste sábado em Twickenham, na Inglaterra, dominaram a Austrália, sobreviveram a uma reação heroica dos Wallabies, e acabaram provando por que são os grandes mestres do rúgbi.

Vencer seu grande rival em uma final inédita – e ainda manter o título da Copa de 2011 – era o único feito que faltava para os homens de preto na melhor fase de sua história. A taça Webb Ellis está em ótimas mãos.

A vitória de hoje dos All Blacks era esperada. Ainda assim, ela impressiona. Os neozelandeses venceram um duríssimo jogo que se confirmou como a melhor final de Copa do Mundo de todos os tempos. Ao contrário do que costuma acontecer em decisões de Mundial, o duelo foi aberto e cheio de tries, com dois times ousados jogando em ritmo brutal (34-17).

Era o jogo que todos estavam dispostos a tudo para não perder, dentro e fora de campo. Dos fãs de rúgbi em todo o mundo e dos torcedores em seus países (3h da manhã em Sydney e 5h da manhã em Auckland no chute inicial) ao grandes astros do rúgbi mundial, como o melhor jogador da Austrália no torneio, David Pocock, que já entrou em campo com o nariz quebrado.

Em meio a tanta rivalidade, qualidade e disposição, a consistência dos All Blacks falou mais alto. Tudo o que foi construído na trajetória vitoriosa dos últimos quatro anos fez muita diferença. Procure em qualquer outro esporte e não vai encontrar um time tão dominante: nos últimos 53 jogos, desde o título mundial de 2011, os neozelandeses só perderam três.

Impressionante para uma nação de 4,6 milhões de pessoas, dominante na era mais equilibrada do esporte – pelo menos foi o que comprovou este Mundial. Em toda história, os All Blacks tem uma média de vitória próxima a 80%. É a mesma marca do tempo que a Nova Zelândia se manteve no topo do ranking mundial.

Melhor retrospecto só mesmo dentro do próprio elenco All Black. O capitão Richie McCaw venceu 89% dos seus 148 jogos com a camisa neozelandesa. Além do recorde no número de jogos com a melhor seleção do planeta, McCaw também foi o primeiro jogador a levantar duas vezes a taça Webb Ellis. E ainda é o único a ser eleito como melhor do mundo por três vezes. Mas ele pode ter companhia.

O camisa 10 Dan Carter já ganhou o prêmio duas vezes e, pelo que jogou na final, deve ganhar seu terceiro troféu. Esta foi a quarta Copa de Carter, mas apenas sua primeira decisão. Eleito “homem do jogo”, Carter acertou um drop goal (chute de bate-pronto, com a bola em jogo) no momento mais crítico do duelo. A diferença era de apenas quatro pontos e os All Blacks estavam expostos a uma incrível virada. Mas Carter decidiu. No seu último grande ato com a camisa negra.

Sem Carter e McCaw (que deixou suspense sobre a sua provável aposentadoria), a Nova Zelândia entra em uma nova era. E o rúgbi também. Esta final entre Nova Zelândia e Austrália, aliás, comprovou a qualidade de todo o torneio. Em vez de medo de errar e perder o título, o que se viu foi ousadia para ganhar.

Não foi apenas os All Blacks, mas todo o rúgbi de forma geral que subiu um degrau. Em qualidade dentro e fora de campo, mantendo a disciplina e o respeito, sem diminuir a rivalidade e a competitividade.

É verdade que o comando segue na mão dos All Blacks, puxando a fila e ditando o ritmo de evolução. E se eles já dominavam o retrospecto contra todas seleções do planeta, agora também sustentam o império em Copas.

Mas por trás do título e de tamanho domínio, não se apaga o Mundial mais equilibrado e empolgante de todos os tempos. O legado dos All Blacks é o mesmo de outras bravas seleções: o nível de rúgbi cresceu e o esporte está no caminho certo.

Neste novo cenário, ainda mais competitivo, será preciso trabalhar muito – e também fazer alguns ajustes, principalmente para alavancar as seleções do segundo e terceiro escalão. O rúgbi tem de manter o crescimento lado a lado com os valores, como sempre foi. Precisa unir paixão e inteligência frente as novas e desafiantes metas.

Bom, nem tudo será novidade. Vencer os All Blacks ainda é um dos maiores desafios deste jogo.

Foto: Paul Gilham/Getty Images

Foto: Paul Gilham/Getty Images

(O “predador” Ma’a Nonu escapa para try decisivo da Nova Zelândia no segundo tempo)

O CARA: Richie McCaw. O camisa 7 dos All Blacks jogou sua 148a partida pela Nova Zelândia e se tornou o primeiro capitão da história a levantar duas vezes a taça Webb Ellis.

A IMAGEM: 

Foto: Dan Mullan/Getty Images

Foto: Dan Mullan/Getty Images

No momento mais crítico do jogo, Dan Carter acertou um drop goal (arma que ele mesmo não costuma usar) fundamental para a vitória dos All Blacks, fechando com maestria sua história na seleção.

A FRASE: “Nós não ficamos nervosos, por que já tínhamos estado nessa situação antes. Sabíamos que tínhamos que manter a calma, colocar a cabeça no lugar e fazer as coisas bem (e com simplicidade). Isso me deixa muito orgulhoso, e fico até sem vontade de parar. Eu ainda faço parte desse time”, Richie McCaw, capitão dos All Blacks, comentando a incrível reação da Austrália e deixando suspense sobre sua aposentadoria.